novembro 29, 2025

Sobreiro no passadiço


Um passadiço ao lado do rio Tejo liga a ponte de Belver à praia do Alamal. Nalguns troços, as canas chegam a fazer túnel; noutros, medronheiros e arbustos adquirem dimensão de árvore; aqui é um sobreiro viçoso e muito alto que acena a quem passa.

- Coisas por aí -

novembro 01, 2025

Um aniversário silencioso


No dia 1 de novembro de 1975, um menino de 11 anos chamado António, que frequentava o 5.º ano, começou a escrever um pequeno livro com dez pequenos capítulos, incentivado pela professora de Português. Nesse dia decidiu que queria ser escritor, mas também pintor, e nunca largou nenhuma das paixões, apesar de, devido a outras opções e às circunstâncias da vida, por muitos anos não ter podido dedicar-se a elas como gostaria.

Desse livro, chamado "Um velho com um espírito novo", foram feitos 40 exemplares artesanais, com fotocópias das folhas por ele datilografadas, e distribuídos pelos colegas e professores da turma. A capa tem um desenho feito por ele, onde está um velho e um burro, personagens da estória, e um pequeno desenho alusivo a cada capítulo. Nela está escrita a data em que o livro foi terminado, já no final do ano letivo. Na contracapa está um desenho com um menino e uma menina, também personagens.

Hoje, esse menino há muito tempo crescido e agora com pouco e branqueado cabelo, pensa nos 50 anos passados desde o dia em que começou a escrever com o desejo de ser escritor. E conseguiu. Mas não tem jornalistas nem leitores à sua volta, a comemorar, nem um novo livro para apresentar, embora tenha algumas dezenas para acrescentar aos poucos que editou. Esse menino, a caminhar para velho, não comemora a data mas lembra-se dela com orgulho da decisão tomada e dos livros que escreveu. Sendo que muitos deles ainda só ele os leu.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

outubro 26, 2025

O beijinho do pai

No passeio, o pai despediu-se da mãe e da filha de ambos, uma menina de uns três anos, que seguia atrás dela. Afastados cerca de dez metros, a menina vira-se para o pai e corre desajeitada para ele. Pai, dá-me uma beijinho! Pai e mãe olham para a filha, sorrindo, ficando parados a vê-la chegar ao pai e estender-lhe os braços. O pai põe-se de cócoras e abraça a filha. Trocam beijos e… não vi mais nada, pois segui andando pelo passeio.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

outubro 15, 2025

A chama oculta


Esta fotografia mostra a Estátua da Liberdade, dum ângulo e momento em que a bandeira dos Estados Unidos oculta a tocha erguida pela mão. A tocha simboliza a luz e a esperança por um mundo melhor. Sinais dos tempos, e dos ventos...

- coisas por aí -

outubro 03, 2025

Sem pintar

Nos últimos meses pintei com alguma intensidade, dois rostos de grandes dimensões sobre tela. Intensidade nos gestos e no querer ver as obras a progredir. Para aproveitar o tempo que tinha disponível, fiz sessões de muitas horas. O ombro direito foi ficando massacrado,  pelos gestos repetitivos com o braço horizontal, estendido para a tela. Dores e contraturas musculares instalaram-se algumas vezes, devidamente tratadas por uma competente fisioterapeuta. Mas o trabalho intenso continuou e instalou-se também uma tendinite (é o que parece), que me tem dado dores muito fortes. Por isso estou sem pintar há algumas semanas, aguardando que massagens e acupuntura tratem do problema. Não posso pintar, mas posso escrever.


- do projeto Sincrónicas e anacrónicas

setembro 01, 2025

O Senhor Som


Terminei recentemente este retrato de O Senhor Som. É mais um rosto a juntar a outros de grandes dimensões, embora este seja o menor de todos, com 1m x 80cm. José Fortes tem uma carreira de seis décadas dedicada à gravação em estúdio e à captação de som em espetáculos ao vivo. Os círculos do fundo e os que estão no seu rosto têm as dimensões de CDs, LPs e singles.

- retratos -

agosto 21, 2025

Na cisterna de Elvas


Esta fotografia foi tirada na cisterna de Elvas, estando sem água. Por trás de mim, no início da escada que leva lá abaixo, está um potente holofote que ilumina toda a construção, e que provoca a minha sombra. É pena a fotografia não mostrar um outro aspeto surpreendente deste espaço: a sua acústica.

- Sombras de mim -

agosto 11, 2025

Atacado por um IVNI

Ia eu a andar pela crista da pequena serra do Louro, perto de Palmela, já no lusco-fusco, quando um inseto, do qual vi apenas o movimento mas que me pareceu do tamanho duma abelha, passou a voar rápido por trás de mim, de imediato sentindo uma dor aguda muito forte. Parecia que tinha sido chicoteado por uma corda metálica de guitarra ou golpeado superficialmente por uma fina lâmina, passando na horizontal pelas extremidades inferiores das omoplatas. Instalou-se um ardor forte nessa linha, de onde por vezes irradiavam pequenos espasmos musculares, ora para cima, ora para baixo, também pelo braço esquerdo, chegando a causar-me um ligeiro mal-estar, próximo da náusea. Tirei a blusa, que não tinha marca de coisa alguma, nem por dentro nem por fora, para que a aragem me desse algum conforto, passando ao de leve com ela pelas costas, de modo a diminuir o ardor. Estava perplexo com o sucedido, receando que pudessem surgir piores reações a este ataque dum inseto voador não identificado. Em casa pude ver ao espelho que muito perto da extremidade inferior de cada omoplata estava uma baba rosada, plana e das dimensões da moeda de dez cêntimos. Não havia, afinal, qualquer linha, mas dois pontos onde algo foi injetado. Mas injetado como, se o inseto não pousou em mim nem entrou por baixo da blusa? No dia seguinte, apenas o ardor estava menos forte. Fui a uma farmácia, mostrei as costas e contei o sucedido, captando a atenção dos quatro farmacêuticos que estavam de serviço. Como ninguém sabia ao certo de que bicho se tratava, venderam-me uma pomada e uns comprimidos antialérgicos comuns, sugerindo-me uma ida ao hospital, caso os sintomas se mantivessem ou agravassem, o que não veio a acontecer. Entretanto pus-me a pesquisar e descobri que poderei ter sido atacado por um besouro-bombardeiro, inseto que desconhecia, mas que fiquei a saber que contém no seu corpo dois venenos em bolsas separadas, que se juntam ao serem expelidos a uma grande velocidade, atingindo uma temperatura de cem graus. Encontrei vídeos que mostram o besouro a bombardear formigas e aranhiços, que de imediato morreram ou ficaram paralisados. De facto, o forte ardor inicial que senti pode ter-se devido tanto à composição do veneno como à sua temperatura. O ardor foi diminuindo, desaparecendo ao fim de cinco ou seis dias, e as manchas das babas passados mais alguns.


- do projeto Sincrónicas e anacrónicas

julho 30, 2025

Esta noite, antes de adormecer


Esta noite, já na cama, não li nem estive a ver coisas no telemóvel. Deu-me para fazer algo diferente: peguei num bloco e fiz dez desenhos, com linhas soltas e despreocupadas. Oito deles são rostos, entre os quais está este. Descobri, assim, uma maneira bem agradável de ocupar o tempo antes de o sono aparecer.

- Desenhos -

julho 20, 2025

Jovem gato dormindo num vaso

É certo que muitas fotografias de gatos são encantadoras, pelo simples facto de os gatos serem animais encantadores. Enroscados ou estendidos, de pé ou sentados, saltando ou correndo, espreguiçando-se ou olhando para nós, facilmente cativam. Este está a dormir enroscado num vaso com plantas mortas.

Foto tirada por Patrícia Raposo, na ilha Terceira, Açores

- Coisas por aí -

julho 06, 2025

País irregulado

Terra retângulo 

Irregular

Com onze pedaços

Espalhados no mar

Formando um triângulo

Irregular


Imensos calhaus

O fazem desabar

Tombando-o por terra

Afundando-o no mar

Assim há muito tempo

Em modo regular


- do projeto Poemas com e sem penas -

junho 17, 2025

O velho da bicicleta

Deparo regularmente com um homem e a sua bicicleta, ora subindo, ora descendo uma avenida de Setúbal, por vezes andando pelo centro da cidade e raramente estando sentado nalgum banco ou numa cadeira de esplanada. É um homem baixo, farto de cabelo escuro e de barba branca, sempre vestido de preto e com um chapéu na cabeça, da mesma cor. Sempre o vi assim, acompanhado pela sua bicicleta; nunca o vi com ninguém, nem sequer dirigir a palavra a alguém, assim como nunca vi ninguém dirigir-lhe uma palavra. Deparo com este homem há cerca de trinta anos. Ele terá agora perto de oitenta, mas sempre o achei velho, talvez por há três décadas ele me parecer isso por eu ser novo. Os seus olhos pequenos, escuros e recuados, pouco se movimentam, e o seu olhar vago nunca foca nada de concreto. Tem um alto esférico e luzidio na fronte, ao lado do olho direito, do tamanho do bugalho dum carvalho: um tumor que parece prestes a rebentar. Anda devagar, como sempre me lembro de o ver, com a sua bicicleta pela mão, ao longo de várias centenas de metros, às vezes com um atrelado onde leva compras. Só o vi montado uma ou duas vezes, não mais. Sei deste homem apenas aquilo que vejo dele, mas facilmente sou levado a presumir que ele viva sozinho, talvez viúvo e sem filhos, talvez desligado de família e sem amigos. Não sei onde mora, mas se tiver vizinhos imagino que nem fale com eles. A bicicleta é, acima de tudo, a sua companhia, ou a sua companheira, que o acompanha de mãos dadas, mas muda. O homem carrega uma tristeza de indiferença, com um rosto de pedra onde não se consegue esculpir um sorriso, nem uma expressão que agrave aquela que tem. Ocorre-me só agora, no momento em que escrevo estas linhas, que talvez um dia o siga para saber onde mora, por mera curiosidade; assim como me ocorre que talvez um dia meta conversa com ele, pelo menos para ver se ele sabe, consegue ou quer falar.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

junho 05, 2025

Cinco autorretratos


Neste espelho estão refletidas cinco imagens minhas: a verdadeira mais quatro retratos em telas, penduradas ao fundo. 

- Reflexos de mim - 

maio 25, 2025

Um músico de rua

Desci a rua Augusta serpenteando entre turistas e esplanadas, lançando olhares para todo o lado, apanhando de relance alguns artistas de rua: estátuas-vivas, músicos, bailarinos e habilidosos de coisas sem mestria. Já no fim, perto do arco, deparei com um velho a tocar viola. Vestia roupas coloridas, algo circenses, e tinha na cabeça um chapéu de tecido mole e largo que lhe tocava nos ombros e quase impedia que se visse o seu rosto. Por estar sentado num banco com cerca de um palmo de altura, tinha a perna direita estendida e a esquerda um pouco dobrada, e entre elas a viola. Aproximei-me para o ouvir. Entretanto, reparei que tremia o maxilar inferior umas quatro-cinco vezes por segundo, fechando e abrindo ligeiramente a boca, como se tivesse um tipo de parkinson manifestando-se apenas na mandíbula. Afinal o homem não tocava, limitando-se a raspar com as unhas da mão direita nas cordas da viola, desafinada, e a mudar de sítio, sem qualquer lógica, o polegar da mão esquerda, que apenas pressionava as cordas mais graves. Não se tratava dum prelúdio para algo que viesse depois e, eventualmente, surpreendesse, mas de gestos infinitamente repetidos. Eu estava perante a imagem dum homem fisicamente débil e mentalmente decrépito, de olhos baixos quase semicerrados, num mundo fechado ao reboliço à sua volta. Se me tivesse ocorrido fotografá-lo não o teria feito, por um certo pudor; ocorreu-me dar-lhe uma moeda, mas não dei, não sei dizer porquê.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

maio 02, 2025

Campo florido


Campo florido num dia de primavera. É um recanto da várzea de Setúbal com o castelo de Palmela ao fundo.

- Coisas por aí -

março 27, 2025

Gravitando - Álvaro de la Vega

 

Uma surpreendente exposição de escultura em madeira está em Setúbal, na Casa da Cultura. As obras são talhadas de forma tosca, com patines muito subtis, adquirindo uma expressividade muito singular. Esta peça está exposta na parede.

- Coisas por aí -