Há três dias, depois de sair do ateliê e logo após virar uma esquina perto, deparei com um homem baixo, de aspeto humilde e pobre, com um boné com a pala um pouco para o lado, que vinha em sentido contrário. Olhou para mim, fez um sorriso e estendeu uma mão fechada na minha direção. O gesto pedia um cumprimento, a que eu correspondi do mesmo modo, tocando com a minha mão fechada na dele. Não parámos nem trocámos palavras. Anteontem, andei descontraidamente por um jardim onde dois rapazes com cerca de dez anos jogavam à bola, chutando-a de um para outro a uma certa distância. Um deles, logo após ter pontapeado a bola, virou-se para mim e disse "Olá!", sorrindo. Eu abrandei o passo, retribuí o cumprimento e perguntei "És bom jogador?" Ele respondeu "Sou, pois!" e eu disse-lhe "Boa!" Ontem, no mesmo jardim onde andei anteontem, passei ao pé dum homem alto que estava parado a fumar ao lado do caminho, com um cão. Virou-se para mim e cumprimentou-me com um "Boa tarde", tendo eu respondido do mesmo modo. Não parei, não houve mais conversa nem necessidade dela. Hoje, à saída do auditório da biblioteca municipal onde eu acabara de dar uma palestra, um homem cuidadosamente vestido, penteado e escanhoado dirigiu-se a mim, apertou-me a mão e disse uma frase comprida de que captei um sentido impreciso por estar ainda com a cabeça muito preenchida pelas imagens e palavras da minha palestra. Sempre achei que se as pessoais se cumprimentassem e tocassem mais, inclusive sendo desconhecidas, como aconteceu comigo em quatro dias consecutivos, as tensões pessoais diminuiriam e o relacionamento social tenderia a ser mais fraterno. Mas a sociedade incita ao individualismo e à competição, criando cada vez mais obstáculos à proximidade e à confiança mútua.
- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -