Era muito jovem quando pela primeira vez ouvi falar da maçonaria. Nessa altura pensei tratar-se duma associação de produtores de maçãs, ou de pasteleiros especializados em doces ou tartes de maçã. Esta dos pasteleiros fazia sentido, uma vez que um dos seus símbolos é o avental. Contudo, mais tarde parecia-me tratar-se antes duma associação de marceneiros, por causa da régua e do esquadro como símbolos. Também me passou pela cabeça poder tratar-se duma associação de merceeiros, pois numa mercearia do bairro onde eu morava, a senhora da loja usava avental e, entre muitas outras coisas, vendia frangos, que podiam ser galinhas ou galos. Tentava, claro está, tirar as minhas conclusões com base em escassa informação, pegando sobretudo nalguns símbolos e nas semelhanças entre as palavras maçonaria, maçã, marcenaria e mercearia. Com base nestas dúvidas pessoais começou-me a parecer que havia qualquer coisa de obscuro em torno da maçonaria. Mais tarde comecei a ouvir falar de pedreiros livres e de símbolos associados à sua atividade, como a trolha, o nível, o fio de prumo, o maço, o cinzel e os mosaicos, além da régua e do esquadro. Não usavam avental, mas alguns vestiam fato macaco. Conhecia até, e isto não é paródia, um pedreiro que via só de um olho e um dia vi-o a comer frango, ou talvez fosse galo. Pensei que poderia ser aquele o chefe da maçonaria. Mas eu, que via regularmente pedreiros e seus trolhas a trabalhar com tijolo e cimento, construindo casas, não me parecia mesmo nada que fizessem parte duma associação com aquela complexidade de símbolos. Deste modo, adensou-se a minha suspeita de obscurantismo em torno da maçonaria, que paira na minha cabeça até aos dias de hoje.
- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -