setembro 08, 2026

Mão e meia

Estacionei o carro a poucos metros da porta do ateliê. Um homem magro, seco, sujo e vestido miseravelmente, descia a rua com passo célere e dirigiu-se a mim estando ainda no carro. Falou de modo trapalhão, dele percebendo apenas duas ou três palavras, mas percebi que me pedia esmola. Já fora do carro, abri a carteira e reparei que tinha apenas algumas moedas de valor muito baixo. Olhe, dava-lhe mais, se tivesse, mas isto é tudo o que tenho de moedas. De imediato o homem disse Então… juntando uma pitadinha aqui, outra ali, às tantas já dá para qualquer coisita. Para não lhe estar a dar moeda a moeda sugeri Junte lá as mãos!, para nelas despejar as pequenas rodelas metálicas. As mãos, não! Mão e meia!, respondeu ele. E ao juntá-las vi que numa delas faltava o polegar e o indicador e que os outros três dedos eram curtos, grossos e deformados. Dei-lhe as moedas e fui ao ateliê num instante, buscar algo que precisava levar para casa. De volta ao carro, ele ainda ali estava. Entrei e lembrei-me que tinha algumas moedas de maior valor na porta. Dei-lhe duas e disse Você é um tipo simpático! Ele moveu a cabeça como se olhasse para meia-dúzia de sítios em dois segundos e disse Isto tem dias dias… Às vezes vareio. Despedi-me dele e pus o carro a trabalhar.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -