Fotografia tirada frente a uma porta de roupeiro encostada a uma árvore, em Setúbal, perto dum contentor de lixo, aguardando que alguém a leve.
- reflexos de mim -
- reflexos de mim -
Porque não fui eu a marcar as exposições, calhou haver duas inaugurações no mesmo dia, com uma hora de diferença entre elas e uma distância de doze quilómetros entre os locais. Às 16h inaugurou na galeria da Artiset, na Casa da Cultura, uma exposição do grupo que frequenta as sessões de desenho de modelo no meu ateliê. Às 17h inaugurou uma individual no Museu da Música Mecânica, perto do Pinhal Novo. Falei na primeira de forma sintética e pedi desculpa a todos por ter de me ausentar, explicando a razão de ser da minha saída a quem a não conhecia ainda. Depois fui a correr até ao carro e meti-me na estrada. O que vale é que, sendo um sábado de inverno e a meio da tarde, havia pouco trânsito. Cheguei ao Museu sete minutos antes da hora, que foi o suficiente. Começou por falar o diretor, depois falei eu, ambos sem qualquer tipo de pressão. Foi mais tranquilo. Correu bem, sem atropelos. A primeira exposição foi montada na véspera, a segunda na antevéspera. A pressão do tempo era muita mas, com ajuda, fez-se e a coisa não saiu mal.
- Exposições -
- Sombras de mim -
Figurinos de Almada Negreiros para a peça Auto da Alma, de Gil Vicente, no Museu do Teatro, numa exposição alusiva à história do Teatro Nacional D. Maria II.
- Coisas por aí -- Outras artes -
Esta imagem é a captura de ecrã duma passagem dum discurso de José Mujica onde ele fala da vida e de como ela se desperdiça, da atuação dos políticos e das pessoas em geral, do passado, do presente e do futuro, de não aprendermos com os nossos próprios erros, etc. Vale muito a pena ver o vídeo na íntegra, assim como ler alguns textos dele que estão editados. A pessoa José Mujica manteve-se inalterável nos seus princípios e valores enquanto presidente do Uruguai, recusando regalias e mordomias.
- Pessoas -
Há três dias, depois de sair do ateliê e logo após virar uma esquina perto, deparei com um homem baixo, de aspeto humilde e pobre, com um boné com a pala um pouco para o lado, que vinha em sentido contrário. Olhou para mim, fez um sorriso e estendeu uma mão fechada na minha direção. O gesto pedia um cumprimento, a que eu correspondi do mesmo modo, tocando com a minha mão fechada na dele. Não parámos nem trocámos palavras. Anteontem, andei descontraidamente por um jardim onde dois rapazes com cerca de dez anos jogavam à bola, chutando-a de um para outro a uma certa distância. Um deles, logo após ter pontapeado a bola, virou-se para mim e disse "Olá!", sorrindo. Eu abrandei o passo, retribuí o cumprimento e perguntei "És bom jogador?" Ele respondeu "Sou, pois!" e eu disse-lhe "Boa!" Ontem, no mesmo jardim onde andei anteontem, passei ao pé dum homem alto que estava parado a fumar ao lado do caminho, com um cão. Virou-se para mim e cumprimentou-me com um "Boa tarde", tendo eu respondido do mesmo modo. Não parei, não houve mais conversa nem necessidade dela. Hoje, à saída do auditório da biblioteca municipal onde eu acabara de dar uma palestra, um homem cuidadosamente vestido, penteado e escanhoado dirigiu-se a mim, apertou-me a mão e disse uma frase comprida de que captei um sentido impreciso por estar ainda com a cabeça muito preenchida pelas imagens e palavras da minha palestra. Sempre achei que se as pessoais se cumprimentassem e tocassem mais, inclusive sendo desconhecidas, como aconteceu comigo em quatro dias consecutivos, as tensões pessoais diminuiriam e o relacionamento social tenderia a ser mais fraterno. Mas a sociedade incita ao individualismo e à competição, criando cada vez mais obstáculos à proximidade e à confiança mútua.
- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -
E muitas vezes não sei porquê. Estou a pensar em pessoas da minha cidade que até fazem coisas úteis e de alguma importância, na área da cultura, por exemplo. Mas não simpatizo com elas porquê? Simples pergunta para a qual não tenho uma resposta que encerre o assunto. Mas talvez tenha várias ou meias respostas, todas elas tontas. Será dum certo modo de quem se mostra saber mais do que os outros, do olhar de quem inquire, da expressão facial de quem despreza, da linguagem corporal de quem se exibe. Será do formato da cabeça com semelhanças às de quem tem tem algum atraso, do perfil do rosto que parece mostrar pouca inteligência, da presunção dos temas abordados, do snobismo das palavras utilizadas. Será? Não condeno as pessoas por tão pouco. Talvez parte destas minhas antipatias tenha a ver com as antipatias que algumas dessas pessoas têm para comigo, ou julgo que terão, sem que saiba porquê.
- Do projeto Sincrónicas e anacrónicas -
- Coisas por aí -
É raro ver-se o Tejo assim, refletindo como um espelho. É raro e belo, mas não é bom sinal, já que isto só é possível com as águas paradas das barragens, que afetam negativamente os rios, suas faunas e floras. Esta fotografia foi tirada da ponte de Belver, tendo ao centro o castelo e algum casario da vila.
- Coisas por aí... -
Um homem gordo como um porco, feio como não sei quê e trombudo como tanta gente que por aí anda, saiu do supermercado e dirigiu-se para o carro. Podia estar mal disposto devido a algo que se terá passado no supermercado, mas o mais certo era sofrer de má disposição permanente, o que fazia dele ainda mais feio do que seria se estivesse tranquilo. Mas o que achei ainda mais feio nesse homem gordo, e me leva a chamar-lhe porco, é que ele abriu uma porta do carro e dele tirou um maço de tabaco amarrotado que atirou para o chão, juntamente com mais dois ou três pequenos papéis, fechando depois a porta com um gesto largo e bruto, como se o seu corpo ocupasse todo o largo espaço de estacionamento. Depois entrou no carro com a dificuldade própria de quem ocupa muito espaço e seguiu caminho com a condução própria de quem está chateado com o mundo.
- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -
Este quadro regista o momento em que Paulo de Társio cai do cavalo depois de lhe ter aparecido uma luz forte que o ofuscou, acompanhada por uma voz. Após este episódio, o guerreiro perseguidor dos seguidores de Cristo tornar-se-ia o apóstolo São Paulo. A composição é, como se pode ver, completamente fora do comum, com as figuras compactadas pelos limites do quadro. Esta luz e estas sombras são... as de Caravaggio no seu melhor.
- Os meus quadros preferidos -