março 29, 2023

O rapto das filhas de Leucipo - Rubens


Rubens está no auge da sua técnica e criatividade quando pinta O rapto das filhas de Leucipo, uma obra de temática mitológica que revela maturidade e ousadia a vários níveis. A dinâmica é um dos aspetos mais evidentes neste quadro, com linhas diagonais em quase todos os segmentos dos corpos, incluindo nos dos cavalos. Uma diagonal maior, como que estruturante do quadro, vai da mão elevada da mulher de cima aos cascos do cavalo que estão no canto do lado oposto, passando pelo estreito intervalo que há entre os corpos das mulheres. Os movimentos dos raptores e os das mulheres que fazem por se libertar deles, assim como a agitação dos cavalos, formam um turbilhão, acentuado ainda pela ondulação dos cabelos, das crinas e dos tecidos.


- os meus quadros preferidos -

março 22, 2023

Às cavalitas do pai

Saídos do pequeno pedaço de praia que existe quase dentro da cidade, vinha um homem com o filho às cavalitas, certamente pai e filho. Homem alto, de calções e ténis e com uma pequena mochila às costas; rapazito pequeno, sentado nos ombros do pai, com um grande guarda-sol de braçado contra o peito. O pai ia de braços soltos, em marcha cuidadosa, para que o filho se aguentasse equilibrado; o filho ia sentido o balanço do corpo do pai, não se deixando atrapalhar com o grande guarda-sol de muitas cores. Parecia um treino para um número de circo, em que o homem testava a capacidade de equilíbrio da criança, e esta a sua capacidade de se equilibrar sem largar o que tinha nas mãos. Aproximavam-se do carro, ali estacionado, no momento em que me cruzei com eles. Não olhei para trás, pelo que não vi como desceu o filho dos ombros do pai.


- do projeto Anuário de banalidades -

março 16, 2023

Preciso de sentimentos - Alda Merini

Eu não preciso de dinheiro
Preciso de sentimentos
De palavras, palavras sabiamente escolhidas
De flores chamadas pensamentos
De rosas chamadas presenças
De sonhos que habitam as árvores
De canções que fazem dançar as estátuas
De estrelas que murmuram aos ouvidos dos amantes

- Textos doutros autores - 

março 07, 2023

Inquilino furioso

Depois de 40 anos a funcionar de portas abertas para o Rossio, esta loja de roupas vai deixar de o ser. Provavelmente para ali abrir mais uma loja de uma marca poderosa, daquelas que estão espalhadas pelo mundo inteiro. Obviamente, o inquilino está furioso, e a sua fúria não passa despercebida. E assim se vai acabando com o comércio tradicional e descaraterizando Lisboa.

- coisas por aí... -

fevereiro 26, 2023

Não lixem mais o ensino


Eu numa das gigantes manifestações de professores de 2008, aqui com o colega José Raposo. Deu-me para isto: pegar numa blusa com posições eróticas, que alguém por brincadeira me ofereceu e que eu não vestia, acrescentar-lhe a frase que se vê por baixo e... vesti-la. Fui fotografado por muita gente. A frase é válida há décadas, continua atual e não se sabe quando deixará de ser. 

Fotografia do colega Aníbal Alves
- Reflexos (fotografia, neste caso), de mim -

 

fevereiro 19, 2023

Falésias em risco


Esta é uma das muitas e surpreendentes vistas das falésias da Serra do Risco. Com 381 metros no Píncaro, são as falésias mais altas de Portugal Continental, estando entre as mais altas da Europa. Mas a estreita Serra do Risco está em risco devido às pedreiras de Sesimbra, que a consomem na sua vertente norte. 

Fotografia de Paulo Serra
- Coisas por aí - 

 

fevereiro 13, 2023

Modelo - carimbo


Foto tirada a meio dum trabalho de pintura, em que o corpo da modelo foi carimbo. Ainda se aconselhava o uso de máscara, nos últimos tempos da pandemia.

- carimbos -

fevereiro 07, 2023

A vespa e a formiga

Assisti e filmei uma curiosa cena envolvendo três animais, um deles morto. No asfalto duma estrada secundária quase sem movimento, uma formiga arrastava uma lagartixa morta. A lagartixa não seria adulta e, além de morta e ressequida, faltava-lhe todo o rabo; a formiga era grandita, mas nada que me fizesse suspeitar que conseguiria a proeza de arrastar a carcaça do pequeno réptil. Entretanto, enquanto freneticamente procedia à tarefa, a formiga era importunada por uma vespa, obrigando-a a largar a lagartixa após algumas investidas. Depois disso, a vespa ficou a sugar a lagartixa. A formiga, depois de se ter afastado, voltou, mas sem sucesso, bastando a indiferença da vespa para a demover de qualquer tentativa de reaver a carcaça.


- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

janeiro 30, 2023

Olha para mim

 

Pequena exposição, pelo número de obras (seis, pois o espaço não dá para mais) e pelo tempo (duas semanas). Está no Espaço das Artes da Casa da Cultura de Setúbal. 

- Exposições -

janeiro 24, 2023

Belos animais

 

Numa azinhaga entre sobreiros cruzou-se comigo um homem conduzindo uma vintena de animais: um burro, um pónei, cabras e ovelhas com algumas crias. Belos animais, disse eu. É verdade, mas isto é trabalho, respondeu ele. Acredito, rematei. Ele esboçou um sorriso tenso e curto e continuou no seu passo decidido.

- coisas por aí... -

janeiro 17, 2023

Vítimas silenciosas


Vítimas silenciosas
Acrílico sobre tecido. Medida menor: c.155

- Silhuetas -

janeiro 13, 2023

Pensamento além de mim

Uso o pensamento como ferramenta para a procura de liberdade e de bem-estar, comigo e com os outros. Quero fazer do pensamento um espaço livre de influências perniciosas, mas tenho de ser muito cauteloso e atento, para que tais influências não se instalem aquando de alguma distração minha. Opiniões e ideias habilmente construídas, vindas do mundo à volta, muitas vezes carecendo de ética e de respeito, estão sempre à espreita duma oportunidade para se instalar e dominar, como faz um vírus num corpo onde entra. O meu pensamento é um templo de que sou guardião. Nele gosto de estar e de me movimentar, não quero ser prisioneiro dele. Gosto da imagem de eu ser uma coisa e o meu pensamento ser algo que habita em mim, como duas entidades que dialogam e se procuram entender pacificamente, sem tempestades.


- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

janeiro 04, 2023

Lembro-me de ir à pesca

Lembro-me de ir à pesca com o meu avô e de ficar muito mais contente por apanhar dois ou três peixes do que ele que apanhava dez ou quinze. Enquanto eu me encantava com isso, ele não. Perdeu a capacidade de se encantar com a idade, pensava eu. Já viveu tantos anos que se fartou de se encantar. Descobri mais tarde que, afinal, ele aprendeu a encantar-se sem o mostrar. O encantamento dele era uma coisa só dele. Eu queria que o meu encantamento fosse partilhado por todos. Que mania parva! A água a jorrar das fontes e das nascentes, fazendo levantar os grãozinhos de areia, deixava-me os olhos a brilhar. Ao meu avô, não. Ele tinha sempre a fonte consigo.

- do projeto Três, dois, um -

janeiro 02, 2023

A beleza da Geometria


Esta fotografia mostra a capela do Palácio Nacional de Sintra. Repare-se como uma decoração plena de formas geométricas pode ser tão bela. Claro que as centenas de pombas dentro dos quadrados dão uma ajuda.

- coisas por aí... - 

dezembro 27, 2022

Tolerância

Espera-se que a tolerância gere tolerância, que a aceitação da diferença gere aceitação da diferença, e que tudo isso gere respeito mútuo. Mas quando se é tolerante com quem não é nem dá mostras de algum dia vir a ser…, o que fazer? Funcionará a tolerância em pessoas cuja educação, cultura ou religião as tornaram incapazes de ver e de aceitar a diferença e o respeito mútuo? Certamente que não. Então o que fazer?

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

dezembro 21, 2022

Cumplicidades - I


 Cumplicidades I - Acrílico sobre tecido, medida menor: c. 155cm

- silhuetas -