agosto 18, 2023

Sombra com ramos secos


Esta fotografia foi tirada no passadiço que leva da ponte de Belver à praia do Alamal. Com os ramos secos que apanhei fiz um arranjo floral que está na jarra duma mesa. Não se vê, mas o Tejo está ali à direita, apenas a uns três metros.

- Sombras de mim -

agosto 09, 2023

Melancólica

Melancólica - Acrílico sobre tecido, cerca de 155x155

- Nus e seminus - 

agosto 04, 2023

Gatos a miar na altura do cio

Gatos a miar na altura do cio, lembrando crianças em birra de final de choro forte e longo, ora me aborrece, ora me concentra para ouvir esse canto guerreiro em tom de lamentação, improvisado e ao desafio. Bem conheço esses sons e até gosto de os imitar; e percebo quando os machos se provocam e dão patadas na cabeça; e depois se envolvem em bulhas com miados e guinchos; e voltam a separar-se e a ameaçar-se; e corre um atrás de outro, que se esconde ou sobe a um muro. E depois termina, com um a desistir do desafio e da luta pela conquista da gata que andará por perto. Se não é assim o que não vejo ou não sei, por ser noite, imagino maneira de o ser por já ter visto.

- do projeto Noitário dum insone -

julho 31, 2023

A leitura e o silêncio

Só se sobe o nível intelectual e cultural de alguém ou dum povo se se promover o silêncio. Para ler há que serenar e silenciar o cérebro.  Para observar e questionar, o silêncio é fundamental, pois é nele que  tudo se constrói e reconstrói. Quem malevolamente governa cria ruídos com as palavras, com os atos e as ideologias que defende. É um ruído que empobrece o espírito e dificulta a vida. A leitura é, por excelência, um motor de cultura e um fertilizante do eu. E pode mudar tanta coisa. Um problema de tantos jovens de hoje, em quase todo o mundo, é viverem em sociedades e culturas inimigas do silêncio. Quem não conhece o silêncio não consegue ler, nem o que dizem os livros, nem o que dizem os sinais do mundo.


- Do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

julho 26, 2023

Corpo com tinta

 

Fotografia tirada no decorrer duma sessão de carimbos corporais sobre tecido. As pinceladas e as cores algo aleatórias proporcionam surpresas, quer nos tecidos, quer no corpo. No tecido fica, no corpo saí com lavagem. Mas na fotografia fica o registo.

- Tinta no corpo -

julho 22, 2023

Fim de viagem



Fotografia tirada num cais do Montijo. Há muito que estes barcos chegaram ao fim da sua viagem. Restam as carcaças daquilo que eles foram, as imagens que nos proporcionam e as memórias de quem os terá utilizado ou visto a navegar. 

- Coisas por aí... - 

julho 16, 2023

Sem-abrigo

Na sala de espetáculos, um espetáculo. Ouvia-se cá fora, perto das paredes mais próximas do palco. Sala cheia, talvez. Na parede lateral, do lado sul, uma saída de emergência num espaço ligeiramente recuado. Nesse espaço, cobertores e tralhas de alguém que ali faria intenção de pernoitar. Passei e olhei. Duas horas depois passei novamente, desta vez em sentido contrário. Lá estava agora o sem-abrigo, dando voltas entre cobertores e tralhas. Tentava abrigar-se na noite demasiado fria para um final de primavera. A reentrância daquela porta protegia-o do vento. Homem de meia-idade, alto, com cabelo comprido e loiro. Pareceu-me estrangeiro, talvez germânico ou nórdico. Reparei que entre aquilo com que se cobria havia uma bandeira nacional, muito suja. Sebenta de tantas nódoas.

- do projeto Anuário de banalidades -

julho 11, 2023

Galandum Galundaina

 

Tenho um particular apreço pela cultura mirandesa, e há anos que desejava assistir a um concerto ao vivo dos Galandum Galundaina. Tal aconteceu, finalmente, anteontem no Pinhal Novo. Aqui estão eles em ação. Multiinstrumentistas, contagiantes, alegres, muito bons, seguros. Um trabalho muito sério e de alto nível! Surpreende a diversidade de instrumentos que foi surgindo como coelhos saindo de cartolas. Todos cantam, à vez ou em coro, e põem toda a gente a dançar (a beilar, como se diz em mirandês). Mesmo os que permanecem sentados, de certeza que dançam por dentro.

- Coisas por aí... -

julho 05, 2023

Inversões

ataca acata


alerta atrela


eleger regele


livres servil


- do projeto Mínimos e visuais -

junho 23, 2023

Segurando o quadrado

 

Recentemente, esperando por uma atividade que ia decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga, reparei na minha sombra junto dos meus pés. Pus-me a fazer algumas fotografias, entre as quais esta, onde a sombra da minha mão parece segurar um pequeno quadro no soalho de madeira.

- sombras de mim -

junho 18, 2023

Cansaço e preguiça

Passaram dezasseis dias desde a última postagem neste blogue. Não estava esquecido dele. O que tinha era um enorme cansaço que deu origem a uma grande falta de vontade e a alguma preguiça para certas coisas. As últimas semanas foram terríveis devido a exigentes trabalhos físicos (além da habitual atividade de explicador), sem os necessários tempos de repouso. Isso quase anulou o meu trabalho intelectual, a criatividade e a vontade de fazer algo que não fosse tentar descansar ou dormir nos poucos espaços livres. Por isso, não tenho pintado nem escrito. Tais trabalhos físicos já abrandaram e tendem a a abrandar mais. Só depois, o que espero seja em breve, a cabeça voltará a ter condições para repousar e criar.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

junho 02, 2023

Trepar paredes

 

Há muitos anos que procurava esta fotografia, revelada sobre papel. Não sabia onde a tinha. Ontem encontrei-a e sorri tanto como estou a sorrir nela. De vez em quando dava-me para fazer isto: trepar paredes, com as mãos numa e os pés noutra. A distância entre elas tinha de ser adequada para que a coisa resultasse em segurança. Terá sido há cerca de 25 anos que esta foi tirada na travessa que faz esquina com a bar La Bohème. Julgo que foi o Paulo que a tirou. A cena foi presenciado por poucos. Poucos, mas muito... incrédulos.

- reflexos (fotografia, neste caso) de mim -

maio 27, 2023

Sons de seda

Há compositores, instrumentistas ou cantores que se destacam por alguma particularidade, algo que confere um caráter muito peculiar à sua obra. Um deles é Chet Baker, que eu muito aprecio. Dentro do jazz, manteve sempre uma suavidade e uma delicadeza admiráveis, seja através da sua voz ou da sua trompete, instrumento habitualmente agressivo e dominador, mas que nos seus dedos e na sua boca se tornou suave como seda. A delicadeza da sua música está presente em toda a sua carreira, desde os tempos de juventude, em que passa por sex simbol, ao final da sua carreira e vida quando, com 50 e tal anos, aparenta ter 90. Muitos discos e imensas canções ele gravou, ao vivo e em estúdio. As suas versões de My funny valentine são as mais sentidas, belas e aveludadas que se podem encontram.


- do projeto Entre deuses e diabos -

maio 15, 2023

Uma questão de natureza

O meu corpo tem formas delicadas e atraentes

O meu rosto tem lábios coloridos e olhos luminosos 

O meu cabelo e a minha pele são suaves e brilhantes


É da minha natureza atrair facilmente


Encanto com os olhos, o sorriso, a voz e os gestos

Mas não se confunda isso com um convite ou uma oferta

Ser como sou pode causar mal-entendidos 


É da minha natureza encantar facilmente


Quando mostro um pouco mais do meu corpo

É por gostar de me ver e que me vejam assim

Se algo insinuar pode não ser mais do que isso


É da minha natureza seduzir facilmente


Sei seduzir quando me agrada ou se assim quero

Mas também sei recusar e espero respeito por isso

Ser como sou não legitima que me violentem


É da minha natureza... de mulher


- do projeto Poemas com e sem penas -

maio 09, 2023

Cedro gigante

 

Este cedro gigante está na aldeia da Piedade, perto de Azeitão. Do seu tronco muito largo irradiam dezenas de troncos secundários, dos quais irradiam centenas de ramos e milhares de gravetos que suportam uma copa quase esférica (de que não se vê os contornos na fotografia). Além de grande, este cedro é saudável e bonito. E não tem sinais de alguma vez ter sido podado.

- Coisas por aí...

maio 02, 2023

Há quem prefira

Vivemos em democracia, com defeitos, com virtudes. Mas há quem faça dela um terreno murado, como um condomínio de usufruto limitado. E há também quem prefira a ditadura à democracia. Quando isso acontece entre quem tem poder, não admira, já que poderia exercê-lo com dureza e lucrar mais com isso, se pudesse. Mas o que me espanta é haver gente comum que deseja viver em ditadura. É gente afeta a partidos de extrema-esquerda ou de extrema-direita, parece-me que iludidos por promessas de igualdade e ou de justiça, em suma, de uma vida melhor. Algumas dessas pessoas vivem bem, outras nem por isso ou mesmo mal, mas não se apercebem que não viveriam melhor em ditadura. Ou se calhar apercebem-se, mas mesmo assim a desejam porque estão contaminados por uma ideologia. Sempre as ideologias para estragar ou piorar as coisas!


- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -