agosto 28, 2024

Tejo como um espelho

É raro ver-se o Tejo assim, refletindo como um espelho. É raro e belo, mas não é bom sinal, já que isto só é possível com as águas paradas das barragens, que afetam negativamente os rios, suas faunas e floras. Esta fotografia foi tirada da ponte de Belver, tendo ao centro o castelo e algum casario da vila.

- Coisas por aí... -

agosto 15, 2024

O homem porco e mal disposto

Um homem gordo como um porco, feio como não sei quê e trombudo como tanta gente que por aí anda, saiu do supermercado e dirigiu-se para o carro. Podia estar mal disposto devido a algo que se terá passado no supermercado, mas o mais certo era sofrer de má disposição permanente, o que fazia dele ainda mais feio do que seria se estivesse tranquilo. Mas o que achei ainda mais feio nesse homem gordo, e me leva a chamar-lhe porco, é que ele abriu uma porta do carro e dele tirou um maço de tabaco amarrotado que atirou para o chão, juntamente com mais dois ou três pequenos papéis, fechando depois a porta com um gesto largo e bruto, como se o seu corpo ocupasse todo o largo espaço de estacionamento. Depois entrou no carro com a dificuldade própria de quem ocupa muito espaço e seguiu caminho com a condução própria de quem está chateado com o mundo.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

agosto 06, 2024

A conversão de São Paulo - Caravaggio

 

Este quadro regista o momento em que Paulo de Társio cai do cavalo depois de lhe ter aparecido uma luz forte que o ofuscou, acompanhada por uma voz. Após este episódio, o guerreiro perseguidor dos seguidores de Cristo tornar-se-ia o apóstolo São Paulo. A composição é, como se pode ver, completamente fora do comum, com as figuras compactadas pelos limites do quadro. Esta luz e estas sombras são... as de Caravaggio no seu melhor.

- Os meus quadros preferidos -

julho 31, 2024

Ditirambo - Miguel Torga

É o amor que me inspira.
Amo a vida, esta bela prostituta.
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante.

Amo-a, e canto esse gosto renovado
De uma grande paixão sobressaltada.
Dum leito de soluços e suspiros
Misturados
Ergo a voz e celebro
Os sublimes deuses
Que, divinos, me deram
O bem humano que nunca tiveram.

- Textos de outros autores -

julho 23, 2024

Pesadelo

 
Depois de largos meses sem pegar em qualquer trabalho sobre tecido, atirei-me a este, cujo desenho-base há muito aguardava continuação. Em três dias ficou terminado. Gosto da carga dramática deste Pesadelo, com 1,55m x 2,14m. 

- Esfregaços -

julho 15, 2024

Afinal...

Afinal, ao contrário do que me pareceu, o Andreas não estava bem, como escrevi aqui há três meses. A felicidade com que fiquei ao ver reconhecida a sua mestria na azulejaria, na recente exposição do Museu Nacional do Azulejo, foi confrontada com a terrível notícia da sua morte, que aconteceu anteontem. Não é a minha felicidade ou infelicidade aquilo que quero noticiar, mas a partida do Andreas e o modo cruel como sucedeu. Eu não fui ao velório, podendo ter ido, nem irei ao funeral, podendo ir. Nunca percebi por que vou umas vezes e outras não, apesar de isso nada ter a ver com o grau de proximidade ou de estima para com a pessoa. Também não é a minha presença ou ausência das cerimónias fúnebres aquilo que quero noticiar, mas a partida do Andreas, e lembrar que deixou muita obra para apreciarmos: desenhos, pinturas, esculturas e azulejos. Além de boas memórias em quem com ele privou.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

julho 02, 2024

1 de julho, Fausto e eu

Fausto foi um dos maiores cantautores que Portugal teve. Por este rio acima, o seu disco mais notável, é uma obra-prima de criatividade e diversidade, de qualidade poética, musical, instrumental e vocal. Ouvi-o e cantei-o imensas vezes. Alguns temas são verdadeiramente enfeitiçantes, como Porque não me vês, O que a vida me deu ou Lembra-me um sonho lindo. Tive o privilégio de ver e ouvir Fausto num concerto memorável em Setúbal, no dia em que fiz 19 anos, poucos meses depois de sair o Por este rio acima. À hora do meu nascimento, Fausto cantava Navegar, navegar. Morre quarenta e um anos depois, no dia em que fiz 60 anos. Ficam os discos, as gravações de concertos, as suas canções e a vontade de continuar a ouvi-las.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

junho 27, 2024

Rapariga com mala


Rapariga com mala - Acrílico sobre cartão, 100x70 

- da série Surpreendidos -

junho 15, 2024

Ideias mil

Ultimamente têm-me ocorrido ideias e ideias de coisas para pintar e de coisas para escrever. Algumas dariam boas obras, se as pusesse em prática. Mas as coisas do dia-a-dia, que têm de ser feitas, preenchem-me muito tempo, pelo que muitas dessas ideias não as alimentarei nem porei em prática. Serão opções de sobrevivência, prescindindo da arte para tratar da vida, ou tratar da vida para não sufocar com a arte.

- Do projeto Sincrónicas e anacrónicas -

junho 04, 2024

Mesa para seis

Parece um banco de madeira, mas é uma mesa de dimensões aproximadamente cúbicas, com pouco mais de dois palmos de lado. Originalmente tinha uma pequena gaveta por baixo do tampo. Há mais de 60 anos, nela comiam seis pessoas, sentadas à sua volta, tirando a comida duma gamela coletiva com uma colher. Alguém se lembrou de a pintar de verde, desvirtuando a cor natural da madeira. Era da família do meu amigo Alexandre, que a preserva como uma relíquia. E é uma relíquia, sobretudo de memórias.

- Coisas por aí -

 

maio 28, 2024

A vida avança - Su Dongpo

A vida avança, é tempo de decisões
Será melhor ainda este infatigável labor
Ou o repouso e a paz?

Por que não meter as mãos dentro das mangas
E, preguiçosamente, olhar apenas
O perpassar dos dias?

Que a saúde nos acompanhe num incerto porvir
Tranquilidade nos anos que nos restam
O prazer de uma taça de bom vinho

Excerto dum poema de Su Dongpo, poeta chinês do séc. XI.

- textos doutros autores -

maio 19, 2024

Com um pé no ar

 

Esta fotografia foi tirada perto de Freixo de Espada à Cinta, num dia de verão com sol muito intenso.

- sombras de mim -

maio 11, 2024

Um pequeno fenómeno

Esta crónica era para se chamar Descascando favas, mas ficou com outro título, já se verá porquê. Hoje comemos favas com entrecosto. É muito bom comermos as coisas próprias da época, porque é quando sabem melhor. Abril é época de favas, e cá em casa todos gostamos. Eu e o João, o nosso filho, descascámos seis quilos de favas. Quem sabe destas coisas sabe que depois o que chega à panela é pouco mais de um terço desse peso. Mesmo assim é provável que a tachada dê para meia-dúzia de refeições (não somos propriamente uns brutamontes a comer). Voltando ao descasque… Para este ser mais eficaz, é preferível fazê-lo com o bico da vagem virado para cima, pois é também para aí que está virado o olho da fava. Assim, o mesmo gesto abre a vagem soltando uma fava e retira-lhe o olho. Mas qual não foi o meu espanto quando numa vagem as favas estavam ao contrário!, ou seja, com o olho virado para o pé. Tirei uma, duas e três favas, e todas estavam assim. Mostrei ao meu filho e à minha mulher. A meio da vagem parei e ia preparar-me para fotografar ou filmar o descasque da outra metade. Contudo, nessa metade houve nova surpresa: as favas estavam na posição certa. Parece mentira, mas não, isto foi verdade verdadinha.

- do projeto Entre deuses e diabos -

maio 01, 2024

Salgueiro Maia - Vhils


No dia em que se comemoraram os 50 anos do 25 de Abril foi inaugurada esta obra de Vhils em Castelo de Vide, terra natal de Salgueiro Maia. Trata-se duma escultura em cimento com pouco mais de dois metros de altura por cerca de 40cm de profundidade, feita a partir duma famosa fotografia de Alfredo Cunha tirada no dia da revolução. 

- Coisas por aí -

abril 25, 2024

50 palavras para Salgueiro Maia

Salgueiro Maia é uma das figuras que eu mais admiro da nossa história, pelo papel que teve no 25 de Abril e pela postura que revelou depois dela. Além disso, fazia anos no mesmo dia que eu e partiu de Santarém, a cidade onde eu nasci, para fazer a revolução.

- do projeto Sincrónicas e anacrónicas - 

abril 16, 2024

Andreas Stocklein


Alguns anos sem nos vermos, eis o reencontro com o escultor e azulejista Andreas Stocklein, numa visita guiada à exposição retrospetiva do seu percurso de 40 anos, no Museu Nacional do Azulejo. É bom reencontrarmos pessoas de quem gostamos, sabermos que estão bem e que têm sucesso. Nesta fotografia, o Andreas posou de forma algo teatral enquadrando-se numa das suas obras, como se o gesto das mãos tivesse acabado de criar o arco que atravessa os azulejos.

- pessoas -