junho 30, 2021
A um dia do aniversário
junho 29, 2021
Uma conquista
junho 27, 2021
junho 24, 2021
Doce aroma
junho 21, 2021
O contrário do óbvio
junho 16, 2021
Património que se perde
junho 11, 2021
Mamíferos - Jesús Lizano
junho 08, 2021
A beleza do vento
junho 05, 2021
Las Meninas - Diego Velázquez
junho 04, 2021
A ânsia da notícia
Parece-me que a generalidade dos jornalistas de televisão tende a endoidecer. Não só esses, mas todos os que que fazem da ânsia de noticiar o foco do seu trabalho, quase um objetivo de vida. Como se os espetadores lhes tivessem pedido algo a que têm de corresponder. Querem noticiar primeiro e garantir grandes audiências. Preferem desgraças a coisas positivas, os dramas à felicidade. São uma espécie de mensageiros da tragédia, da tristeza e da inveja. Pessoas ansiosas. Fazem tudo rápido e dinâmico. Alguns dão as notícias de pé, ou estão sentados e depois levantam-se, e esbracejam a apontar para gráficos. Alguém lhes ensinou que isso prende os espetadores (mas há muita gente que não quer ficar presa). Mas depois engasgam-se e enganam-se, e dão notícias com falhas, e outras falsas. E constroem notícias que não o são. E chegam a fazer notícias do que está para acontecer. Presumindo. E depois há as notícias que passam em rodapé, que chegam a ser três, além da que está a ser falada. E nessas notícias de rodapé há frases estáticas e outras que se deslocam a diferentes velocidades. Chamam-lhes lagartixas. Tudo isto é doido e acontece ao ritmo com que o mundo se encaminha para o abismo. E por isso é tão bom não ver televisão. Ou não ver estas coisas.
do projeto Entre deuses e diabos
maio 31, 2021
Chuva de flores
maio 29, 2021
Perfume de mulher
Estando numa pastelaria a tomar o pequeno almoço com um amigo, passou ao meu lado e pelas minhas costas uma mulher de uns 40 anos, que se foi sentar junto de um homem, sensivelmente da mesma idade, que pouco antes se instalara numa mesa atrás de mim. Mal vi o rosto da mulher, e a situação não mereceria esta banalidade, por ser demasiado trivial, não fosse o caso de o seu perfume ter semiparalisado o diálogo que estava a ter com o meu amigo, assim como o pensamento que me guiava. Sou sensível a cheiros, sim, e perfumes é coisa que por norma não aprecio e que até me causa algum enjoo. Estranhamente, este foi envolvente pela sua suave doçura, mas sobretudo por um toque bastante feminino que me fez sentir que seria emanado do próprio corpo da mulher. De tal modo feminino e envolvente, que dei por mim a pensar Caramba! Se fosse este o odor natural do corpo das mulheres…
do projeto Anuário de banalidades
maio 27, 2021
Paz no orgulho
Gosto de olhar para trás, para os tempos em que vivíamos todos juntos: eu, o meu irmão, a minha irmã, a minha mãe e o meu pai, ele muito tempo fisicamente ausente (nos mais de vinte anos de emigração que cumpriu). E também gosto de olhar para o contacto que tive com os meus avós. Eram pessoas boas os ascendentes que conheci, e outros de quem ouvi falar, simples e humildes; analfabetos os avós e todos daí para trás, os meus pais vagamente letrados. Pessoas espertas, com o tino alerta para nunca se deixarem enganar e saberem os bons caminhos a indicar aos filhos. Pessoas inteligentes, que se tivessem tido a possibilidade de estudar…, onde teriam chegado! Pessoas que lutaram para dar, e conseguiram, essa oportunidade aos filhos, para que não passassem as dificuldades que eles passaram em crianças e até meio da vida. E os seus pais a vida inteira, e daí para trás vidas e vidas inteiras. Nunca pediram nem esperaram que lhes dessem nada. A motivação estava num forte crer e na garra para mudar as coisas. Por isso, olhando para trás, sinto-me honrado por ter a melhor memória que se pode ter dos pais: orgulho. E a melhor herança que vem com ele: paz de espírito.
do projeto Sincrónicas e anacrónicas
maio 23, 2021
maio 20, 2021
Gritando pela mãe
Por volta das 20h, sendo já noite cerrada, um pequeno carro saía vagaroso, com duas pessoas, do estacionamento frente a um prédio. Não lhes percebi os rostos, porque estava escuro e porque não os procurei ver. Entretanto, do prédio saiu um rapaz duns treze anos com um saco na mão, que ele abanava, saco pequeno mas com algo dentro que lhe dava volume. Vendo que o carro já se afastava gritou Mãe!!, alto e num tom agudo, fazendo prolongar a palavra. Eu, apercebendo-me de alguma urgência naquele chamamento, logo a seguir gritei mais alto Oi!! Mas quem seguia no carro não ouviu nenhum de nós. Vendo algum ar de desalento no rapaz, que baixou os braços e sossegou o saco, sugeri Liga-lhe para o telemóvel. Ele demorou alguns segundos a reagir. Disse, olhando para o sítio onde ia o carro, A minha mãe vai agora para o hospital… Logo me virou costas e se dirigiu a passos lentos para a porta do prédio, cabisbaixo e abanando ligeiramente o saco.
do projeto Anuário de banalidades
maio 17, 2021
Trââââââânsito
Fui à capital e um pouco além dela. Para lá apanhei pouco trânsito. Quer dizer, deu para andar sem parar, apesar do trânsito. Mas mesmo assim deu-me que pensar, pois mais alguns carros e a coisa complicava-se. Isto foi à ida para lá, ao início da tarde, pois à vinda para cá, ao final da tarde, já a coisa estava feia. Filas e filas; ou melhor, fiiiiiilas e fiiiiiiiiilas. E contive-me para não desperdiçar muitas letras repetidas. À vinda para cá o carro esteve mais tempo parado do que em andamento. Carros e carros, muitos carrrrrrrrrrrrrrrros; entre eles o meu a contribuir para o número. Dei por mim a pensar, algumas vezes, que não poderão estar bem da cabeça as pessoas que se confrontam diariamente com filas e esperas e os nervos daí resultantes. Como poderão estar bem as pessoas que são violentadas todos os dias pelo trânsito automóvel durante anos ou décadas? O que me incomodou estar em filas malucas de trânsito só por cerca de uma hora! Caramba!, pensar que fui só comprar umas tintas a uma loja.
do projeto Anuário de banalidades




